A IA não veio substituir o profissional de Segurança e Saúde no Trabalho. Veio torná-lo mais versátil

Tempo de leitura: 3 minutos

“A inteligência artificial não veio apenas para nos fazer pensar mais — veio também tornar-nos mais versáteis.”

Xavier Marcet – Versatilidade profissional

Ao longo dos últimos meses, temos assistido a um debate recorrente no domínio da Segurança e Saúde no Trabalho: acabará a inteligência artificial por substituir os profissionais de prevenção?

A pergunta é compreensível, mas provavelmente está mal formulada.

Como explica Xavier Marcet no seu artigo Versatilidade profissional, a IA não elimina necessariamente postos de trabalho; o que faz é re-distribuir tarefas. Automatiza as atividades repetitivas, estruturadas e de baixo valor acrescentado, para que as pessoas possam dedicar mais tempo àquilo que realmente exige critério, experiência e capacidade de decisão.

E poucas profissões se enquadram melhor nesta reflexão do que a prevenção de riscos profissionais.

O maior risco não é a IA fazer o nosso trabalho

É continuarmos a realizar tarefas que uma IA já consegue executar melhor.

Quanto tempo dedica atualmente um profissional de Segurança e Saúde a atividades como:

  • redigir relatórios repetitivos;
  • rever documentação;
  • classificar incidentes;
  • preparar estatísticas;
  • pesquisar legislação;
  • responder a questões recorrentes;
  • criar procedimentos semelhantes repetidamente;

Muitas destas tarefas podem ser significativamente aceleradas com o recurso à inteligência artificial.

Isso não significa o desaparecimento do profissional de prevenção, mas sim a eliminação de uma parte do trabalho que acrescenta menos valor. 

Mais tempo onde realmente importa

Se conseguirmos automatizar a burocracia, o que pode um profissional de prevenção fazer com esse tempo?

Muitíssimo. Pode estar mais presente no terreno, conversar mais com os trabalhadores, observar melhor o trabalho real, analisar tendências, liderar mudanças culturais, acompanhar as chefias, dedicar mais tempo à investigação das causas profundas e menos ao preenchimento de formulários…

Em suma, pode tornar-se um profissional muito mais estratégico.

A nova competência será a versatilidade

Marcet insiste numa ideia especialmente relevante:

“As empresas procurarão preencher os postos de trabalho com pessoas capazes para o presente e versáteis para o futuro.”

Esta reflexão aplica-se perfeitamente ao mundo da Segurança e Saúde, uma vez que, durante muitos anos, valorizamos a especialização técnica, que continuará naturalmente a ser imprescindível. No entanto, precisaremos de profissionais capazes de combinar conhecimentos técnicos com novas competências:

  • utilização de ferramentas de IA;
  • análise de dados;
  • comunicação;
  • liderança;
  • gestão da mudança;
  • pensamento sistémico;
  • cultura de segurança.

A prevenção deixará de se limitar ao conhecimento da legislação.

Passará também por saber utilizar a tecnologia para construir organizações mais seguras.

A IA não substitui o critério

Existe um erro frequente: pensar que a IA consegue fazer prevenção de forma autónoma. Não consegue.

Uma IA pode identificar padrões em milhares de acidentes, resumir legislação, ajudar a redigir procedimentos, apoiar a criação de painéis de controlo, detetar tendências e até analisar imagens para identificar potenciais riscos.

Mas não conhece o contexto real de uma organização, não compreende a sua cultura, não interpreta as conversas, não deteta as dinâmicas de uma equipa, não gera confiança nem lidera pessoas…

E é precisamente aí que continuará a residir o verdadeiro valor do profissional de Segurança e Saúde.

De especialista técnico a arquiteto da prevenção

A inteligência artificial obriga-nos também a redefinir o próprio papel do profissional de prevenção.

A sua função deixará de estar centrada na produção de documentos para passar a ser a de alguém que:

  • interpreta informação;
  • toma decisões;
  • liga diferentes áreas da empresa;
  • promove a aprendizagem organizacional;
  • acompanha os líderes;
  • contribui para transformar a cultura de segurança.

Trata-se de um perfil muito mais transversal.

Exatamente a “pessoa em forma de T” descrita por Xavier Marcet: profissionais com uma base técnica sólida, mas capazes de trabalhar entre diferentes disciplinas, compreender o negócio e adaptar-se continuamente.

A oportunidade para a Segurança e Saúde

Há vários anos que a prevenção reclama mais tempo para estar próxima das pessoas e menos tempo dedicado a tarefas administrativas.

A IA pode ser o catalisador que permita alcançar esse objetivo.

Mas isso exige uma mudança de mentalidade.

Não basta incorporar novas ferramentas.

É necessário repensar a forma de trabalhar.

As organizações que obterão melhores resultados não serão aquelas que substituírem pessoas por inteligência artificial, mas sim aquelas que utilizarem a IA para multiplicar o impacto dos seus profissionais.

Porque a segurança não depende apenas de processos ou algoritmos.

Depende, sobretudo, de pessoas capazes de aprender, adaptar-se e liderar.

E talvez essa seja a principal conclusão do artigo de Xavier Marcet: o futuro não pertence a quem sabe mais, mas a quem tem maior capacidade para continuar a aprender.

Na Segurança e Saúde, a inteligência artificial não deve afastar-nos do trabalho no terreno. Muito pelo contrário: deve libertar-nos de parte da carga administrativa para que possamos dedicar mais tempo àquilo que nunca poderá ser completamente automatizado: compreender como as pessoas trabalham, influenciar as suas decisões e construir organizações mais seguras.

Esta é, provavelmente, a maior oportunidade que a IA oferece atualmente à Segurança e Saúde no Trabalho.

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