A inteligência artificial já deixou de ser uma tecnologia experimental. Está cada vez mais presente no trabalho quotidiano, melhora a produtividade individual e começa a integrar-se em processos completos. No entanto, existe uma diferença importante entre utilizar IA e conseguir que tenha um impacto real na organização.
Esta é provavelmente uma das conclusões mais interessantes do relatório The state of AI in 2026: On the road to ROI, publicado pela McKinsey. Cerca de nove em cada dez participantes afirmam que as suas organizações utilizam regularmente IA em pelo menos uma função, e 44% indicam que já a estão a expandir à escala da organização. Além disso, 80% consideram que a IA melhorou a sua produtividade individual. (McKinsey & Company)
Mas, quando se analisa o impacto económico global, o panorama muda: apenas 37% atribuem à IA algum impacto positivo no EBIT e só 6% podem ser considerados, segundo a classificação da McKinsey, organizações de elevado desempenho em IA (high performers). (McKinsey & Company)
A questão, por isso, já não parece ser se devemos utilizar inteligência artificial, mas outra bastante mais complexa:
Como podemos conseguir que a IA transforme realmente a nossa forma de trabalhar?
E esta questão aplica-se plenamente à segurança e saúde no trabalho.
O problema de acrescentar IA a processos que já são ineficientes
Na prevenção, temos uma enorme oportunidade.
Avaliações de riscos, investigações de acidentes, inspeções, formação, vigilância da saúde, gestão de equipamentos de proteção individual (EPI), coordenação de atividades empresariais (CAE), procedimentos, relatórios, acompanhamento de ações, preparação de comunicações, análise de dados…
Cada um destes processos gera documentação, registos e tarefas de acompanhamento. Muitas são recorrentes e repetitivas e acabam por consumir uma parte considerável do tempo dos profissionais de SST.
Perante esta realidade, a primeira reação pode parecer evidente: automatizemos tudo o que for possível com IA.
Mas talvez esse não seja o melhor ponto de partida.
Uma das conclusões mais relevantes do estudo da McKinsey é precisamente que as organizações que estão a obter mais valor da IA não se limitam a introduzir novas ferramentas nos processos existentes.
Quase três em cada quatro organizações consideradas high performers estão a redesenhar de forma profunda os seus fluxos de trabalho com recurso à IA. Entre as restantes organizações, apenas cerca de uma em cada quatro o faz. (McKinsey & Company)
A diferença é enorme.
Porque automatizar um processo ineficiente não faz dele, necessariamente, um bom processo. Pode apenas permitir-nos executar mais depressa algo que talvez nunca devêssemos ter feito.
Antes de automatizar, importa perguntar que trabalho deve continuar a existir
Esta ideia está diretamente relacionada com um conceito especialmente relevante em SST: o Safety Clutter.
Em muitas organizações, foram-se acumulando procedimentos, formulários, verificações, registos, aprovações e tarefas administrativas, originalmente criados com a intenção de melhorar a segurança. Com o passar do tempo, alguns continuam a acrescentar valor preventivo; outros, porém, consomem recursos sem contribuir de forma significativa para reduzir o risco.
Por isso, antes de perguntarmos:
«Como posso fazer isto com IA?»
convém fazer outra pergunta:
«Devemos continuar a fazer isto?»
Na PrevenControl, propomos classificar o trabalho preventivo com base em duas variáveis: o seu valor preventivo e o tempo que consome. Desta forma, podemos distinguir o trabalho que devemos preservar porque exige critério e presença profissional; aquele que podemos potenciar com IA; as atividades de baixo impacto que requerem pouco tempo; e, em especial, o clutter: tarefas de baixo valor preventivo que consomem muito tempo e que devemos procurar eliminar antes de automatizar.
Esta distinção muda por completo a conversa sobre a aplicação da IA à prevenção.
O objetivo não deve ser reduzir o número de técnicos, mas recuperar tempo de qualidade
Há ainda outro dado do estudo da McKinsey que merece atenção.
Embora as expectativas de redução do emprego devido à IA continuem a aumentar, as reduções efetivamente verificadas foram consideravelmente inferiores ao esperado. Apenas 14% dos participantes de organizações que utilizam IA afirmam que esta contribuiu para reduzir o número de trabalhadores no último ano, face aos 32% que, um ano antes, esperavam que isso acontecesse. (McKinsey & Company)
Em SST, acreditamos que existe uma forma muito mais interessante de abordar esta transformação.
O que aconteceria se o tempo que a IA liberta a um técnico de prevenção fosse utilizado para fazer mais prevenção?
O profissional poderia dedicar mais tempo a estar no terreno, falar com as pessoas, observar como o trabalho é realmente realizado, cocriar soluções com as equipas, analisar riscos complexos, trabalhar com as chefias ou desenvolver a liderança e a cultura preventiva.
É precisamente este o princípio em que assenta a SinergIA, desenvolvida pela PrevenControl:
a IA não substitui o técnico; potencia o seu trabalho.
O objetivo é devolver tempo a quem realmente acrescenta valor, para que possa pensar estrategicamente, estar presente onde as coisas acontecem, cocriar soluções e construir uma cultura preventiva.
SinergIA: passar da experimentação com IA à transformação dos processos de SST
Foi a partir desta necessidade que desenvolvemos a SinergIA, um serviço da PrevenControl para integrar a inteligência artificial na gestão da segurança e saúde de forma prática e criteriosa.
Não começamos por ensinar a utilizar ferramentas.
Começamos por compreender como a organização trabalha.
O serviço estrutura-se em torno de três eixos: rever e otimizar os processos, eliminando o que não acrescenta valor; integrar a IA onde pode gerar um impacto real; e formar e acompanhar a equipa, para que ganhe autonomia e consiga incorporar estas novas formas de trabalhar na sua atividade quotidiana.
Esta abordagem está diretamente alinhada com uma das principais conclusões do estudo da McKinsey: as organizações que obtêm mais valor não são necessariamente as que se limitam a adotar mais ferramentas, mas as que transformam os seus fluxos de trabalho, envolvem as suas lideranças e estabelecem mecanismos para medir o impacto das iniciativas de IA. (McKinsey & Company)
Como o colocamos em prática?
O percurso da SinergIA estrutura-se em três fases.
Numa primeira fase de diagnóstico, mapeamos os processos e a respetiva documentação, analisamos que tarefas podem ser consideradas Safety Clutter e damos prioridade àquelas em que a IA pode gerar maior impacto.
Segue-se uma formação prática, construída a partir do próprio diagnóstico. Em vez de trabalharmos apenas com exemplos genéricos de IA, utilizamos casos reais da organização e as ferramentas com que os seus profissionais trabalham habitualmente.
Por fim, fazemos um acompanhamento da implementação, ajudando a equipa a aplicar o que aprendeu, a resolver dificuldades e a consolidar as novas formas de trabalhar.
Além disso, o diagnóstico não se baseia apenas em perceções. Combinamos a análise documental dos processos reais, um índice de maturidade orientado para a IA, mapas de experiência para compreender onde é consumido o tempo e uma priorização baseada no impacto e no esforço.
Onde pode a IA acrescentar valor à prevenção?
As possibilidades são enormes, mas podemos agrupá-las em quatro grandes áreas.
A primeira é o próprio processo preventivo e a respetiva documentação: registos, relatórios, análises e acompanhamento de ações.
A partir daí, surgem três outras grandes áreas: a criação de conteúdos, como comunicações, cartazes ou infografias; o acesso ao conhecimento, facilitando a consulta de legislação, procedimentos ou documentação técnica; e a análise e o apoio à decisão, utilizando informação sobre acidentes, incidentes, observações ou riscos para identificar padrões e ajudar a definir prioridades de atuação.
Mas existe uma oportunidade ainda maior: ligar estes processos entre si.
Uma investigação de acidente pode contribuir para a revisão de uma avaliação de riscos. Uma inspeção pode gerar ações automaticamente. Os dados acumulados podem revelar padrões. Uma alteração a um procedimento pode desencadear necessidades de formação ou comunicação.
A verdadeira transformação chegará quando deixarmos de utilizar a IA exclusivamente para gerar documentos isolados e começarmos a utilizá-la para fazer circular o conhecimento entre os diferentes processos preventivos.
Da produtividade individual a uma prevenção diferente
Talvez esta seja a principal lição que podemos retirar do estudo da McKinsey para o nosso setor.
Estamos a entrar numa segunda fase de adoção da inteligência artificial.
A primeira consistiu em descobrir que o ChatGPT, o Copilot, o Gemini ou outras ferramentas nos podiam ajudar a redigir um procedimento, resumir um documento, preparar uma formação ou analisar dados.
Isso já está a acontecer.
A fase seguinte é muito mais profunda:
repensar a forma como fazemos prevenção, aproveitando as novas capacidades proporcionadas pela IA.
E isso exige mais do que tecnologia.
Exige rever processos, eliminar trabalho desnecessário, identificar onde o conhecimento humano continua a ser indispensável, redesenhar fluxos de trabalho, formar os profissionais e acompanhar a mudança.
O paradoxo é que o maior sucesso da IA aplicada à segurança e saúde provavelmente não será conseguir que os técnicos façam muito mais coisas.
Será conseguir que deixem de fazer muitas das tarefas que não acrescentam valor e possam dedicar mais tempo àquilo que nenhuma IA pode substituir: compreender o trabalho real, estar com as pessoas e contribuir para construir organizações mais seguras.
É esse, precisamente, o propósito da SinergIA: unir o conhecimento em prevenção e a inteligência artificial para alcançar uma prevenção mais eficaz.
Fonte de referência: The state of AI in 2026: On the road to ROI — McKinsey


