Prestação de contas sem culpabilização: chaves para uma cultura de segurança que realmente funciona

Tempo de leitura: 2 minutos

A cultura justa melhora realmente o reporte de incidentes?

Nos últimos anos, a ideia de uma cultura justa ganhou terreno como solução para os problemas de subnotificação de erros e incidentes no trabalho. A promessa é apelativa: uma organização onde as pessoas se sintam seguras para comunicar sem medo de serem culpabilizadas. Mas até que ponto esta narrativa corresponde à realidade?

O que é realmente uma “cultura justa”?

James Reason definiu-a como um clima de confiança no qual as pessoas estão motivadas e seguras para reportar erros, mas com clareza sobre os limites entre o aceitável e o inaceitável.

Não se trata de eliminar a prestação de contas, mas de a equilibrar com compreensão e justiça.

O problema da evidência

Surpreendentemente, a investigação científica não sustenta de forma conclusiva que implementar uma cultura justa aumente o reporte de incidentes ou reduza eventos adversos. Em muitos estudos, o fator determinante não é a cultura em si, mas aspetos mais tangíveis, como:

  • A qualidade do sistema de reporte
  • A coerência da liderança em segurança
  • O nível de conhecimento e motivação dos trabalhadores
  • A gravidade do possível impacto dos erros

Responsabilidade sim, mas com intenção e contexto

Os modelos de culpabilidade existentes (Reason, Hudson, Marx) ajudam a distinguir entre erros involuntários, negligências, imprudências e violações deliberadas. Mas, curiosamente, estes modelos aplicam-se quase sempre ao trabalhador da linha da frente, quando 80% dos desastres na segurança de processos resultam de decisões de gestão.
Não deveríamos começar a olhar mais para cima?

Lições aprendidas

  • A intenção importa: nem toda a prestação de contas é culpabilização.
  • O medo da repreensão pesa mais do que a punição: as pessoas temem mais ser apontadas do que sancionadas.
  • A liderança modela o comportamento: a forma como a direção aborda os erros condiciona a confiança em todo o sistema.
  • Não existe cultura justa sem sistemas justos: a cultura não resolve aquilo que processos e estruturas continuam a fazer mal.

Então, o que fazer?

Mais do que adotar a “cultura justa” como um slogan, talvez o verdadeiro caminho passe por:

  • melhorar os sistemas de reporte,
  • reforçar a coerência da liderança,
  • redefinir a prestação de contas em todos os níveis da organização.

Porque, sem transformar o sistema, pedir confiança torna-se uma promessa vazia.

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