Porque é que tantas organizações dizem que aprendem com os incidentes… mas, na realidade, não aprendem?

Tempo de leitura: 3 minutos

Aprender com os incidentes (Learning From Incidents – LFI) é um dos objetivos mais repetidos na Segurança e Saúde no Trabalho. No entanto, na prática, muitas organizações continuam a enfrentar o mesmo problema: investigam-se incidentes, elaboram-se relatórios, divulgam-se lições aprendidas… e, ainda assim, os problemas voltam a acontecer.

Um estudo recente publicado no International Journal of Occupational Safety and Ergonomics analisou esta questão em profundidade. Os investigadores estudaram 273 organizações para compreender quais os fatores que permitem que a aprendizagem a partir dos incidentes aconteça efetivamente.

A principal conclusão é clara: a aprendizagem não depende apenas da investigação dos incidentes, mas também do contexto organizacional em que essa aprendizagem ocorre.

O problema da aprendizagem superficial

O estudo parte de uma observação que muitos profissionais de segurança reconhecerão: divulgar informação sobre incidentes não garante que a organização aprenda com eles.

Em muitas empresas, a aprendizagem é limitada por diversos fatores estruturais:

  • As investigações centram-se na identificação do responsável direto pelo incidente, em vez de analisarem os fatores sistémicos que o tornaram possível.
  • A aprendizagem fica restrita às pessoas mais próximas do acontecimento, sem se estender ao restante da organização.
  • As lições aprendidas raramente são transferidas entre projetos, equipas ou unidades organizacionais.
  • As ações corretivas focam-se na resolução do problema imediato, mas não questionam o sistema que o gerou.

Este tipo de aprendizagem é conhecido como single-loop learning: corrige-se o erro sem alterar os pressupostos ou estruturas que o originaram. Uma aprendizagem mais profunda — o chamado double-loop learning — exige questionar processos, decisões organizacionais e condições do sistema.

Em muitos casos, esse passo nunca chega a acontecer.

A análise de 38 acidentes graves ocorridos entre 2010 e 2020 reforça esta ideia. Segundo os autores, o objetivo final de muitas investigações foi simplesmente identificar a pessoa responsável e aplicar sanções, enquanto a aprendizagem organizacional foi praticamente inexistente.

O dilema da culpa

Um dos maiores obstáculos à aprendizagem a partir dos incidentes é o papel que a culpa ou a punição desempenham dentro da organização.

Quando reportar um incidente pode implicar consequências negativas — exposição pública, repreensões, sanções disciplinares, riscos legais ou aumento da carga de trabalho — os trabalhadores aprendem rapidamente que o mais seguro é permanecer em silêncio.

O sistema de aprendizagem bloqueia-se logo à partida.

No entanto, o estudo também destaca um ponto importante: a ausência total de responsabilização também não é uma solução. Quando ninguém é responsabilizado por nada, a aprendizagem perde força e as organizações podem cair na complacência.

Por isso, os autores defendem a importância de encontrar um equilíbrio: a cultura justa.

O papel da cultura justa

A cultura justa procura precisamente esse equilíbrio entre responsabilidade e aprendizagem.

Neste modelo:

  • Os erros são analisados no seu contexto sistémico.
  • As pessoas não são automaticamente punidas por cometer erros.
  • Mas também não são ignorados comportamentos claramente negligentes ou irresponsáveis.

O estudo demonstra que a cultura justa está positivamente associada à capacidade de aprender com os incidentes.

O mais interessante é que este efeito não ocorre de forma direta. A investigação mostra que atua através de dois mecanismos fundamentais.

Segurança psicológica: a condição para que as pessoas falem

O primeiro mecanismo é a segurança psicológica.

Quando os trabalhadores entendem que a organização atua de forma justa e equilibrada, desenvolvem a confiança necessária para expressar preocupações, erros ou dúvidas sem receio de represálias.

Este ambiente é essencial para a aprendizagem organizacional, porque a informação mais valiosa sobre riscos e falhas encontra-se, muitas vezes, nas pessoas que estão mais próximas do trabalho real.

Se essas pessoas não falarem, a organização perde a sua principal fonte de conhecimento.

Voice behaviour: quando as pessoas se atrevem a dizer o que sabem

O segundo mecanismo identificado pelo estudo é o chamado voice behaviour: a predisposição das pessoas para partilhar informação relevante, mesmo quando esta pode ser desconfortável.

Quando existe segurança psicológica, os trabalhadores estão mais dispostos a:

  • Reportar incidentes ou quase-acidentes.
  • Partilhar experiências relacionadas com erros próprios.
  • Identificar falhas em procedimentos ou sistemas.
  • Levantar dúvidas ou preocupações operacionais.

Por outras palavras, a organização começa a ter conversas honestas sobre a forma como o trabalho realmente acontece.

E é precisamente aí que começa a verdadeira aprendizagem.

O verdadeiro estrangulamento da aprendizagem

Uma das conclusões mais interessantes do estudo é que o principal obstáculo à aprendizagem com os incidentes não está na investigação, mas sim numa fase anterior: o reporte dos incidentes.

Se as pessoas não comunicam aquilo que acontece, a organização nunca terá acesso à informação necessária para aprender.

Neste sentido, a cultura organizacional — mais do que os procedimentos — é o fator que determina se a aprendizagem é possível ou não.

Uma reflexão para os líderes de segurança

Para os líderes de segurança, este estudo reforça uma ideia fundamental: os sistemas de aprendizagem não se constroem apenas com procedimentos ou metodologias de investigação.

Constroem-se criando ambientes onde as pessoas sentem que falar sobre erros é seguro, útil e legítimo.

Quando as pessoas confiam que a organização agirá com justiça, estão mais dispostas a partilhar aquilo que sabem.

E quando as organizações conseguem promover esse diálogo, os incidentes deixam de ser apenas acontecimentos a investigar.

Passam a tornar-se verdadeiras fontes de aprendizagem organizacional.

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