O paradoxo da experiência: quando os trabalhadores mais experientes também correm maiores riscos.

Tempo de leitura: 3 minutos

Em muitas organizações existe uma crença profundamente enraizada: quanto mais experiência uma pessoa tem, mais segura é a trabalhar.

Durante anos, esta ideia orientou grande parte das estratégias de prevenção. Investem-se grandes esforços na formação e proteção dos trabalhadores recém-integrados, porque a sua falta de conhecimento do sistema, do ambiente e dos riscos os torna especialmente vulneráveis.

E essa preocupação é totalmente justificada.

Mas os dados de investigações de acidentes industriais e de saúde ocupacional revelam um paradoxo inquietante: a relação entre experiência e probabilidade de acidente não é linear.

Na realidade, segue uma curva em forma de U.

A curva em U da probabilidade de incidentes

Quando analisamos os dados de sinistralidade em função dos anos de experiência na função, surge um padrão surpreendentemente consistente.

1. O “Gap dos novatos” (0-1 anos): quando tudo é novo

Durante o primeiro ano, o risco de incidente é muito elevado.

As razões são claras:

  • Falta de habilidade prática
  • Desconhecimento do sistema de trabalho
  • Baixa familiaridade com o ambiente
  • Stress cognitivo e fisiológico ao enfrentar tarefas novas

O cérebro está constantemente a aprender, o que aumenta a carga mental e reduz a capacidade para detetar sinais de perigo.

Por isso, a maioria dos programas de prevenção dedica uma grande quantidade de recursos a esta fase: acolhimento, formação inicial, tutoria e supervisão próxima.

2. A “Zona de atenção consciente” (2-9 anos): o ponto de maior segurança

Entre o segundo e o nono ano costuma surgir a fase mais segura da carreira profissional.

Neste período combinam-se dois fatores-chave:

  • Elevada competência técnica
  • Elevada consciência situacional

As pessoas já dominam o seu trabalho, mas continuam a manter um respeito consciente pelos riscos.

Sabem executar a tarefa e, ao mesmo tempo, permanecem atentas ao ambiente.

Esta combinação é aquilo a que alguns especialistas em fatores humanos chamam zona de atenção plena operacional.

3. O “Pico de risco nos trabalhadores veteranos” (10+ anos): o risco volta a aumentar

E é aqui que surge o paradoxo. A partir de aproximadamente dez anos de experiência, a probabilidade de incidentes graves volta a aumentar.

Não por falta de conhecimento.
Precisamente pelo contrário.

As investigações em Human Factors mostram que existem três mecanismos psicológicos e organizacionais que explicam este fenómeno.

Porque é que os trabalhadores mais experientes também sofrem acidentes

1. Automatização extrema (autopilot)

Quando uma pessoa executa uma tarefa milhares de vezes, o cérebro delega-a no Sistema 1, o modo automático.

Isto traz vantagens (rapidez, eficiência), mas também um risco importante:

a atenção consciente desliga-se da ação física.
O trabalho passa a ser feito “sem pensar”.
E quando surge uma situação ligeiramente diferente, a reação pode chegar demasiado tarde.

2. Normalização do risco

Se uma tarefa perigosa foi realizada centenas ou milhares de vezes sem consequências negativas, o cérebro começa a reinterpretá-la.

O risco deixa de ser percecionado como ameaça.
Produz-se aquilo a que na segurança industrial chamamos normalização do risco:
O perigo continua a existir, mas deixa de ser sentido como perigo.

É o mesmo fenómeno que explica porque certas práticas inseguras se tornam “normais” em determinados ambientes.

3. Deriva procedimental (procedural drift)

Com o tempo, muitos trabalhadores desenvolvem formas próprias de executar o trabalho.

Atalhos.
Adaptações.
Pequenas alterações para ganhar eficiência.

Muitas vezes são melhorias úteis.

Mas outras vezes implicam ignorar barreiras de segurança previstas no procedimento original.

Ao longo dos anos, estas variações podem consolidar-se e transformar-se em práticas habituais, mesmo sem nunca terem sido formalmente avaliadas.

O erro de muitas organizações

Em muitas empresas assume-se que experiência equivale automaticamente a segurança.

Por isso:

  • A formação centra-se quase exclusivamente nos novos trabalhadores
  • Os veteranos recebem menos atenção preventiva
  • Os sistemas de supervisão tornam-se mais permissivos com a experiência

Mas a evidência mostra que os riscos invisíveis também aumentam com os anos.

Não porque as pessoas saibam menos.

Mas porque o cérebro altera a forma como processa o risco.

Como gerir o risco nos trabalhadores veteranos

Proteger um trabalhador com 15 anos de experiência não se consegue com uma indução básica nem com um checklist genérico.

As intervenções devem focar-se em quebrar o piloto automático.

Algumas estratégias eficazes incluem:

1. Conversas sobre o trabalho real

Espaços onde os profissionais possam explicar como executam realmente o trabalho, e não apenas como o procedimento indica.

2. Revisão de práticas consolidadas

Analisar adaptações e “truques do ofício” para distinguir entre inovação útil e desvios perigosos.

3. Aprendizagem entre especialistas

Sessões onde trabalhadores experientes analisam incidentes e partilham experiências críticas.

4. Rotação cognitiva

Alterar temporariamente funções, tarefas ou perspetivas para evitar automatização excessiva.

5. Abordagens baseadas em Human and Organizational Performance (HOP)

Que colocam o foco em como as pessoas trabalham realmente e em como o sistema evolui ao longo do tempo.

A pergunta que toda a organização deveria fazer

Se na tua empresa ocorrer um acidente grave, para onde olharias primeiro?

Muitos líderes continuam a pensar no trabalhador novo.

Mas a realidade é mais complexa.

A segurança não consiste apenas em proteger quem ainda está a aprender, mas também em manter desperta a atenção de quem leva anos a fazer o mesmo.

Porque, na segurança no trabalho, a experiência não elimina o risco.

Às vezes, simplesmente torna-o invisível.

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