Incidentes zero: quando perseguir o número perfeito põe em risco a segurança!

Tempo de leitura: 2 minutos

Durante décadas repetimos uma ideia muito intuitiva:

se reduzirmos os incidentes, reduziremos também os acidentes graves e as mortes.

Mas a evidência está a dizer-nos algo muito diferente.
E o gráfico que acompanha este artigo — extraído de um estudo do setor da construção finlandês entre 1977 e 1991 — é uma das demonstrações mais claras.

Quando descem os indicadores dos incidentes… sobem as mortes!

No eixo vertical, vemos a taxa de incidentes notificados.
No eixo horizontal, a taxa de mortalidade.

Cada ponto representa um ano.
E a linha de regressão mostra uma realidade chocante:

À medida que as taxas de incidentes descem, as taxas de mortalidade sobem.

Sim: menos incidentes reportados… e mais mortes.

Como é possível?

A paradoxo dos “incidentes zero”

Este fenómeno é conhecido como o paradoxo da segurança dos incidentes zero.
Reflete um problema que continuamos a observar hoje em muitas organizações.

1.- Menos relatórios não significa menos risco

Quando se pressiona a organização para “incidentes zero”, os trabalhadores deixam de reportar incidentes ligeiros, desvios ou condições inseguras.

Não porque não existam, mas porque reportá-los implica consequências: tempo extra, chamadas de atenção, auditorias internas, reuniões indesejadas…

O resultado: o sistema deixa de ver os sinais fracos.

2.- Os incidentes ligeiros não preveem os graves

Durante anos assumimos como certa a “pirâmide de Heinrich”: reduz as lesões ligeiras e, por magia, as graves desaparecerão.

Os dados reais demonstram que não é assim.
Os eventos graves têm causas próprias, normalmente associadas a decisões organizacionais, planeamento, conceção do trabalho ou falhas latentes.

Pode existir uma operação “sem incidentes” durante meses… e, ainda assim, estar a acumular um risco enorme.

3.- A ilusão da segurança baseada em indicadores

Quando o objetivo é apresentar “bons números”, o foco desloca-se:

  • De compreender a exposição ao risco
  • Para gerir o KPI

E isso cria a tempestade perfeita:
A organização acredita que está a melhorar… contudo o risco real está a aumentar.

O que nos ensina este gráfico?

A mensagem não é que os indicadores não sirvam.
A mensagem é que não podem ser a bússola.

As organizações que evoluem para uma segurança mais madura:

  • Centraram-se na exposição real, não nos números.
  • Reforçam a confiança psicológica para que as pessoas reportem sem medo.
  • Priorizam os SIFP (Serious Injury and Fatality prevention).
  • Aprendem com o trabalho real, não apenas com o trabalho prescrito.
  • Combinam Safety-I (controlo) com Safety-II (capacidade e adaptação).
  • Adotam abordagens de Human & Organizational Performance (HOP).

Deixar para trás a obsessão pelo zero

“Zero” é inspirador enquanto visão.
Mas destrutivo enquanto objetivo operacional.

Porque quando perseguimos o zero absoluto, a primeira coisa que desaparece não são os riscos… mas a sinceridade.

Conclusão

O gráfico finlandês recorda-nos uma lição essencial:

A verdadeira segurança não se mede pelo número de incidentes que reportamos, mas pela capacidade que temos para realizar o trabalho de forma segura, mesmo quando tudo se torna difícil.

E essa mudança de mentalidade — do número para o sistema, do dado para o trabalho real — é o que marca a diferença entre uma organização que ostenta segurança… e uma que realmente a constrói.

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