Até agora, a maioria das experiências de Realidade Virtual (RV) em segurança e saúde no trabalho tem-se centrado no “vivido na primeira pessoa”. O objetivo costumava ser que o trabalhador vivesse o acidente “na sua própria pele” para gerar um impacto emocional. No entanto, um estudo recente publicado na Safety Science (2025) por Jeffrey C.F. Ho e Ali Lai Lai Wong propõe uma alternativa fascinante: o poder de ser testemunha.
O risco da dessensibilização
O estudo alerta para um efeito secundário pouco explorado: a dessensibilização. Quando um utilizador experimenta repetidamente acidentes num ambiente virtual onde sabe que não pode sofrer danos reais, existe o risco de acabar por normalizar o perigo ou subestimar as consequências no mundo físico.
Para evitar isto, os investigadores propõem uma mudança de abordagem: passar do “aconteceu-me a mim” para o “aconteceu a um colega”.
A chave: Empatia e ligação social
A investigação analisou como presenciar um acidente mortal em RV afeta a atitude e a motivação do trabalhador face à formação. Os resultados revelaram três conclusões fundamentais para quem concebe estratégias de formação:
A empatia como motor: Ser testemunha de um acidente virtual aumenta significativamente a atitude positiva em relação à segurança. Não se trata apenas de ver o acontecimento, mas da empatia associativa que se gera em relação à vítima virtual.
A importância do contexto: O impacto é muito maior quando o trabalhador tem informação prévia sobre a vítima (por exemplo, saber que tem família ou uma relação próxima com os colegas). A “humanização” do avatar eleva o envolvimento emocional.
Presença social: Quanto mais real e “presente” se sente o ambiente social na simulação, mais eficaz é a mensagem preventiva.
O que significa isto para o futuro da formação em SST?
Este estudo dá-nos pistas claras sobre como evoluir as nossas ferramentas de formação:
Menos “gore” e mais história: Não é necessário que o simulador seja visualmente violento; é mais eficaz que o utilizador se ligue à personagem que sofre o incidente.
Narrativas interpessoais: Introduzir storytelling sobre as relações entre os trabalhadores dentro da simulação pode ser mais poderoso do que a própria física do acidente.
Aumento da motivação: Os participantes que presenciaram acidentes de “colegas próximos” mostraram maior predisposição para aprender e reter posteriormente informação técnica de segurança.
Conclusão
A Realidade Virtual não é apenas uma ferramenta para praticar processos; é uma tecnologia de treino emocional. Se conseguirmos que o trabalhador sinta que a sua segurança protege não só a sua vida, mas também a de quem o rodeia, teremos dado um passo gigante rumo a uma cultura preventiva interdependente.
Na PrevenControl continuamos a explorar como estas evidências científicas podem transformar a formação para que seja não só mais tecnológica, mas sobretudo mais humana.
Tem interesse em integrar metodologias de RV baseadas no comportamento no seu plano de formação? Contacte-nos e falemos sobre como elevar a cultura de segurança da sua organização.


