Em vez de uma multa ou de uma sanção penal, e se oferecêssemos aos profissionais envolvidos num incidente a oportunidade de partilhar a sua história, refletir e aprender? É precisamente isto que o Ministério Público Neerlandês começou a fazer em alguns casos relacionados com a aviação geral. E os resultados estão a desafiar os modelos tradicionais de justiça e de prevenção.
Uma abordagem restaurativa como contraponto à justiça punitiva
Nos últimos anos, alguns pilotos nos Países Baixos, que cometeram infrações não graves, tiveram a oportunidade de evitar uma sanção penal em troca de uma ação radicalmente diferente: dar uma palestra no seu aeroclube sobre o que aconteceu, partilhar as aprendizagens retiradas e abrir um debate com outros pilotos. Esta medida, inspirada nos princípios da justiça restaurativa, revelou-se não só mais humana, como também mais eficaz para melhorar a segurança.
Da sanção à aprendizagem
Os pilotos que participaram nesta abordagem alternativa descrevem o processo como emocionalmente intenso, mas construtivo. Passaram de se sentirem criminalizados para viverem uma experiência de escuta e respeito, na qual puderam explicar o que aconteceu sem serem julgados à partida. Um deles resumiu assim:
“Isto foi um castigo muito melhor… mais maduro. Não se trata de punir, mas de prevenir que volte a acontecer e de aprender.”
Restaurar a confiança, não apenas aplicar consequências
O valor desta iniciativa não reside apenas no que os próprios pilotos aprendem, mas também no efeito que tem sobre a comunidade profissional. Os participantes nas sessões reconhecem a complexidade das operações e partilham experiências semelhantes. Esta abertura gera mais conhecimento do que qualquer processo sancionatório.
Just Culture: feita contigo ou feita sobre ti?
Este exemplo coloca-nos uma questão importante: como aplicamos a Cultura Justa nas nossas organizações? Como uma política que se “impõe” de fora para dentro, ou como uma ferramenta para construir responsabilidade futura através da empatia, do diálogo e da reparação?
Na PrevenControl, acreditamos que a Cultura Justa não pode ser reduzida à decisão sobre se alguém merece ou não uma sanção. Trata-se de criar espaços onde os erros são analisados para compreender, não para apontar culpados. Porque só assim se constroem ambientes verdadeiramente seguros.
Conseguem imaginar a aplicação deste tipo de práticas restaurativas noutros setores? Estamos preparados para evoluir a nossa visão da responsabilidade e da segurança?


