Dos postos de trabalho às competências: como a inteligência artificial está a transformar o trabalho.

Tempo de leitura: 4 minutos

Em muitas organizações, o trabalho continua estruturado como estava há mais de um século: postos de trabalho definidos, descrições rígidas e hierarquias claras. Este modelo nasceu durante a Segunda Revolução Industrial e tem sido o padrão durante décadas.

No entanto, a chegada da inteligência artificial e da digitalização está a questionar profundamente esta forma de organizar o trabalho.

Numa entrevista recente publicada pela McKinsey & Company, Tanuj Kapilashrami, diretora de estratégia e talento do banco global Standard Chartered, explica como a sua organização está a liderar uma transformação profunda baseada em competências (skills) em vez de postos de trabalho.

Embora o exemplo venha do setor bancário, as ideias que apresenta têm implicações muito relevantes para qualquer organização… e também para a gestão da segurança e saúde no trabalho.

O problema do modelo tradicional: quando o trabalho se organiza por postos de trabalho

Durante décadas, as empresas geriram o talento respondendo a perguntas como:

  • Quantas pessoas precisamos para este posto?
  • Que funções tem cada papel?
  • Que posição hierárquica ocupa na organização?

Esta abordagem tem uma limitação importante: assume que o conhecimento e as capacidades estão concentrados em determinados departamentos ou funções.

Por exemplo, se uma empresa quiser saber quanta capacidade de programação tem, normalmente contará o número de engenheiros informáticos que tem contratados.

Mas a realidade é diferente.

Em muitas organizações existem pessoas com competências que não estão a ser utilizadas, porque o trabalho se organiza à volta dos postos e não das capacidades.

A inteligência artificial está a acelerar esta mudança, porque permite que pessoas sem formação técnica profunda consigam realizar tarefas complexas com apoio tecnológico.

A organização baseada em competências

Para responder a este desafio, o Standard Chartered impulsionou um modelo diferente: organizar o trabalho em torno das competências, e não dos postos.

Isto implica várias decisões estratégicas.

1. Identificar as competências do futuro

O banco analisou que capacidades desapareceriam nos próximos anos e quais seriam necessárias.

Classificaram-nas em duas categorias:

  • Sunset skills → competências que perderão relevância
  • Sunrise skills → competências que serão essenciais no futuro

Esta análise permitiu alinhar a estratégia de negócio com o desenvolvimento do talento.

2. Gerir as competências como um ativo estratégico

Uma das descobertas mais interessantes foi económica.

O banco calculou que requalificar um colaborador e reatribuir-lhe novas funções podia poupar cerca de 49.000 dólares por pessoa, comparado com contratar esse talento no mercado.

Isto reforça uma ideia fundamental:

O maior potencial de talento costuma estar dentro da própria organização.

3. Mudar a lógica de contratação: “build, buy, borrow… or bot”

Quando surge uma necessidade de trabalho, a pergunta já não é:

Quantas pessoas precisamos?

Mas sim:

Que competências precisamos?

A partir daí analisam-se quatro opções:

  • Build → desenvolver a competência internamente através de formação
  • Buy → contratar talento externo
  • Borrow → colaborar com parceiros ou especialistas externos
  • Bot → automatizar a tarefa com tecnologia ou IA

Um mercado interno de talento dentro da empresa

Uma das iniciativas mais inovadoras foi a criação de um marketplace interno de talento.

Qualquer pessoa pode publicar um projeto (“gig”) indicando:

  • que trabalho deve ser realizado
  • que competências são necessárias

E qualquer colaborador pode oferecer as suas capacidades para participar.

Este sistema permitiu:

  • acelerar projetos
  • ligar talento global dentro da organização
  • aumentar a aprendizagem interna
  • melhorar a motivação e retenção dos colaboradores

De facto, os colaboradores que participam nestes projetos apresentam níveis significativamente mais elevados de compromisso e desenvolvimento profissional.

O verdadeiro impacto da IA: não é tecnológico, é cultural

Uma das mensagens mais importantes da entrevista é que a adoção da inteligência artificial não é principalmente um desafio tecnológico.

É um desafio de:

  • competências
  • liderança
  • cultura organizacional

Muitas empresas estão a investir em tecnologia, mas não estão a capacitar as pessoas para trabalhar com ela.

E isso pode gerar uma lacuna perigosa.

Como refere Kapilashrami:

Os humanos não perderão os seus empregos para as máquinas.
Perderão para outros humanos que saibam utilizá-las.

As competências humanas que ganharão valor

Num mundo em que a tecnologia automatiza cada vez mais tarefas técnicas, as competências mais valiosas serão aquelas que as máquinas não conseguem replicar facilmente.

Entre elas destacam-se:

  • gestão da ambiguidade
  • pensamento crítico
  • capacidade de julgamento
  • criatividade
  • adaptação à mudança
  • colaboração

Ou seja, competências profundamente humanas.

Cultura organizacional: software e hardware

Outro conceito interessante que surge na entrevista é a ideia de que a cultura organizacional tem dois componentes.

Software

Mentalidades e comportamentos:

  • liderança
  • valores
  • formação
  • role modeling

Hardware

Os sistemas que fazem essa cultura funcionar na prática:

  • processos
  • governação
  • sistemas de decisão
  • incentivos
  • ferramentas

Muitas organizações trabalham apenas o “software” (valores, discursos, formação), mas esquecem o “hardware”.

Sem mudanças nos processos e nas estruturas, a cultura nunca se consolida.

O que significa tudo isto para a segurança e saúde no trabalho?

Embora o exemplo venha do setor bancário, as implicações para a segurança e saúde no trabalho são muito relevantes.

Particularmente em três áreas.

1. Novas competências em segurança

Os profissionais de prevenção precisarão cada vez mais de competências como:

  • análise de dados
  • utilização de IA
  • interpretação de informação complexa
  • liderança cultural

A segurança será cada vez mais orientada por dados (data-driven).

2. Aprendizagem contínua

As competências técnicas têm uma vida útil cada vez mais curta.

Isto obriga a criar organizações que aprendem continuamente.

3. Novos modelos de liderança

A segurança do futuro exigirá líderes capazes de:

  • trabalhar com tecnologia
  • gerir sistemas complexos
  • desenvolver competências nas suas equipas
  • promover culturas de aprendizagem

Uma pergunta-chave para qualquer organização

A transformação descrita pelo Standard Chartered convida a refletir sobre uma questão simples mas poderosa:

A nossa organização está desenhada em torno de postos de trabalho… ou de competências?

Responder a esta pergunta pode marcar a diferença entre adaptar-se ao futuro do trabalho ou ficar preso a modelos do passado.Num contexto em que a inteligência artificial está a redefinir a forma como trabalhamos, a verdadeira vantagem competitiva continuará a estar nas pessoas… e em como desenvolvemos as suas capacidades.

Contacta-nos

TAMBÉM PODES ESTAR INTERESSADO EM

Queres saber mais sobre Cultura de segurança?

Queres saber mais sobre Cultura de segurança?

Close Popup

Usamos cookies para mejorar la experiencia de usuario. Al aceptar el uso de cookies está de acuerdo con nuestra política de cookies.

 

Close Popup
Open Privacy settings