Demasiada prevenção pode ser perigosa? Chaves para identificar e reduzir o Safety Clutter

Tempo de leitura: 2 minutos

Isso de que cada incidente gera uma nova checklist, um novo formulário ou mais uma instrução soa-te familiar? Embora possa parecer contra intuitivo, a acumulação de atividades, documentos e procedimentos de segurança que não acrescentam valor real — aquilo a que se chama safety clutter — pode estar a minar a segurança em vez de a reforçar.

Um estudo recente liderado pela Safety and Health Innovation Network (SHINe), em colaboração com empresas do setor da construção na Austrália, aprofunda este fenómeno. A conclusão? Muitos sistemas de gestão da segurança estão tão saturados de burocracia que não só desviam a atenção do essencial, como também degradam a eficácia operacional, o envolvimento dos trabalhadores e a cultura preventiva.

O que é o safety clutter?

Segundo David Rae et al. (2018), trata-se da “acumulação de procedimentos, documentos, funções e atividades em nome da segurança que não contribuem para a segurança do trabalho real”. Esta desorganização apresenta-se de três formas:

  • Práticas mal orientadas: aquelas que não reduzem riscos nem previnem danos, como formulários que ninguém revê ou avaliações “para inglês ver”.
  • Práticas excessivas: como SWMS (Safe Work Method Statements) com 60 páginas que ninguém lê, ou processos duplicados devido a exigências contraditórias de diferentes auditores.
  • Práticas irrelevantes: procedimentos desligados da realidade do trabalho, concebidos sem consultar quem o executa.

De onde vem tanto desorganização?

O safety clutter não surge por acaso. O estudo identifica três níveis de causas:

  • Pressões externas: múltiplas regulamentações, auditorias excessivas e exigências divergentes dos clientes.
  • Respostas organizacionais: criação de documentos “por precaução”, sistemas defensivos para evitar responsabilidades ou processos pensados mais para cumprir do que para proteger.
  • Práticas internas: acumulação de regras sem revisão, falta de participação dos trabalhadores ou interpretação incorreta dos requisitos legais.

E o pior é que todos estes fatores estão interligados e alimentam-se mutuamente. Cada novo requisito pode gerar outro processo, outro controlo, outra barreira… muitas vezes acrescentada sem eliminar o que já existia.

E que consequências tem?

Para além do desgaste administrativo, o safety clutter gera efeitos reais e perigosos:

  • Desvia recursos da supervisão ativa para tarefas burocráticas.
  • Afasta os trabalhadores, que passam a ver a prevenção como um obstáculo em vez de uma ajuda.
  • Aumenta os riscos ao criar uma falsa sensação de segurança.
  • Enfraquece a cultura preventiva, fomentando o cinismo e a desconfiança.

Como começar a “limpar o terreno”?

O estudo propõe uma abordagem colaborativa e multinível para reduzir o safety clutter:

  • Eliminar o que não acrescenta valor: identificar práticas inúteis e abandoná-las.
  • Simplificar o que é excessivo: reduzir formulários, unificar controlos e ajustar a carga documental ao que é realmente útil.
  • Redesenhar o que é irrelevante: reescrever procedimentos com a participação ativa de quem executa o trabalho.

Uma oportunidade para evoluir culturalmente

Há muito que se defende a necessidade de passar de uma prevenção centrada no cumprimento para uma prevenção centrada na eficácia real. Identificar e reduzir o safety clutter é uma via poderosa para avançar para uma prevenção que protege de facto, que faz sentido para as pessoas e que constrói culturas mais maduras e sustentáveis.

Como refere o relatório: “Quando as atividades de segurança se desligam da sua função protetora, paradoxalmente aumentam o risco”.

E tu? Atreves-te a rever tudo o que fazem “por precaução”?

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