Isso de que cada incidente gera uma nova checklist, um novo formulário ou mais uma instrução soa-te familiar? Embora possa parecer contra intuitivo, a acumulação de atividades, documentos e procedimentos de segurança que não acrescentam valor real — aquilo a que se chama safety clutter — pode estar a minar a segurança em vez de a reforçar.
Um estudo recente liderado pela Safety and Health Innovation Network (SHINe), em colaboração com empresas do setor da construção na Austrália, aprofunda este fenómeno. A conclusão? Muitos sistemas de gestão da segurança estão tão saturados de burocracia que não só desviam a atenção do essencial, como também degradam a eficácia operacional, o envolvimento dos trabalhadores e a cultura preventiva.
O que é o safety clutter?
Segundo David Rae et al. (2018), trata-se da “acumulação de procedimentos, documentos, funções e atividades em nome da segurança que não contribuem para a segurança do trabalho real”. Esta desorganização apresenta-se de três formas:
- Práticas mal orientadas: aquelas que não reduzem riscos nem previnem danos, como formulários que ninguém revê ou avaliações “para inglês ver”.
- Práticas excessivas: como SWMS (Safe Work Method Statements) com 60 páginas que ninguém lê, ou processos duplicados devido a exigências contraditórias de diferentes auditores.
- Práticas irrelevantes: procedimentos desligados da realidade do trabalho, concebidos sem consultar quem o executa.
De onde vem tanto desorganização?
O safety clutter não surge por acaso. O estudo identifica três níveis de causas:
- Pressões externas: múltiplas regulamentações, auditorias excessivas e exigências divergentes dos clientes.
- Respostas organizacionais: criação de documentos “por precaução”, sistemas defensivos para evitar responsabilidades ou processos pensados mais para cumprir do que para proteger.
- Práticas internas: acumulação de regras sem revisão, falta de participação dos trabalhadores ou interpretação incorreta dos requisitos legais.
E o pior é que todos estes fatores estão interligados e alimentam-se mutuamente. Cada novo requisito pode gerar outro processo, outro controlo, outra barreira… muitas vezes acrescentada sem eliminar o que já existia.
E que consequências tem?
Para além do desgaste administrativo, o safety clutter gera efeitos reais e perigosos:
- Desvia recursos da supervisão ativa para tarefas burocráticas.
- Afasta os trabalhadores, que passam a ver a prevenção como um obstáculo em vez de uma ajuda.
- Aumenta os riscos ao criar uma falsa sensação de segurança.
- Enfraquece a cultura preventiva, fomentando o cinismo e a desconfiança.
Como começar a “limpar o terreno”?
O estudo propõe uma abordagem colaborativa e multinível para reduzir o safety clutter:
- Eliminar o que não acrescenta valor: identificar práticas inúteis e abandoná-las.
- Simplificar o que é excessivo: reduzir formulários, unificar controlos e ajustar a carga documental ao que é realmente útil.
- Redesenhar o que é irrelevante: reescrever procedimentos com a participação ativa de quem executa o trabalho.
Uma oportunidade para evoluir culturalmente
Há muito que se defende a necessidade de passar de uma prevenção centrada no cumprimento para uma prevenção centrada na eficácia real. Identificar e reduzir o safety clutter é uma via poderosa para avançar para uma prevenção que protege de facto, que faz sentido para as pessoas e que constrói culturas mais maduras e sustentáveis.
Como refere o relatório: “Quando as atividades de segurança se desligam da sua função protetora, paradoxalmente aumentam o risco”.
E tu? Atreves-te a rever tudo o que fazem “por precaução”?


