Abordagem tradicional versus nova abordagem da segurança: o que vemos todos os dias sem nos darmos conta

Tempo de leitura: 4 minutos
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Na prevenção fala-se muito de normas, procedimentos e controlos. Mas quando olhamos para a forma como o trabalho é realmente feito, qualquer responsável de Segurança e Saúde sabe que a realidade é muito mais complexa: turnos que mudam, fornecedores que não chegam a tempo, equipamentos que falham no momento mais inoportuno, comunicação imperfeita e centenas de pequenas decisões que cada pessoa toma para que o trabalho seja feito… e seja feito em segurança.

Um estudo recente sobre segurança no âmbito da saúde — aplicável a qualquer ambiente complexo, também industrial — volta a lembrar-nos algo que muitos técnicos de prevenção observam há anos no terreno:

Não basta perseguir a ausência de acidentes. É preciso compreender como o trabalho seguro acontece todos os dias.

E é aqui que entram em jogo a abordagem tradicional da segurança, Safety-I, e a nova abordagem, Safety-II.

Quando a abordagem tradicional fica curta (e por vezes nos complica a vida)

Durante duas décadas, grande parte dos sistemas de segurança foi construída segundo a lógica Safety-I: mais protocolos, mais padronização, mais controlos, mais indicadores para reduzir variações e evitar erros.

No papel soa bem. Na realidade do terreno… nem sempre funciona.

O estudo assinala vários limites bem conhecidos por qualquer técnico de prevenção:

  • O trabalho real nunca é linear. As tarefas mudam em função da produção, da metodologia, do pessoal disponível ou da pressão dos prazos.
  • A variabilidade humana não é um problema, mas uma parte essencial do sucesso.
  • As pessoas ajustam — por vezes de forma criativa — as condições, para que tudo continue a funcionar.
  • Mais procedimentos não significam mais segurança. De facto, o excesso de normas pode gerar frustração, reduzir a autonomia do trabalhador e aumentar o burnout.
  • Muitos procedimentos não se baseiam em evidência, mas na crença de que mais controlo é sempre melhor.
  • Os ambientes complexos não se deixam governar por políticas top-down. A realidade avança mais depressa do que o papel.

O estudo conclui algo que provavelmente reconhecemos: não é realista pensar que todos os riscos podem ser eliminados ou que o sistema pode ser redesenhado até à perfeição.

Safety-II: compreender como a segurança é criada todos os dias

O Safety-II surge precisamente para responder a estas limitações. E fá-lo com uma premissa muito simples: a segurança não consiste apenas em evitar que as coisas corram mal, mas em compreender porque é que quase sempre correm bem.

No dia a dia, isso significa observar:

  • Como os trabalhadores ajustam as tarefas para resolver imprevistos.
  • Como se recupera a estabilidade quando algo se desvia.
  • Que estratégias informais funcionam, mesmo não estando implementadas.
  • Que decisões tomam as equipas quando o procedimento não se aplica à situação real.
  • Que sinais precoces detetam os supervisores para antecipar problemas.

O estudo recorda que:

  • As pessoas não são o risco: são a fonte de adaptação.
  • Os sistemas reais têm defeitos estruturais que não podem ser redesenhados do zero.
  • Precisamos de flexibilidade e capacidade de manobra, não apenas de cumprimento.

Por outras palavras: trabalho como foi imaginado vs. trabalho como é realmente feito.

O dilema diário do responsável de segurança

Uma das reflexões mais interessantes do estudo surge quando explica que, em muitos casos, Safety-I e Safety-II entram em conflito direto.

Exemplo muito típico em qualquer empresa:

Um procedimento diz que uma manobra deve ser feita de A → B → C.
Mas o operador, com 20 anos de experiência, sabe que naquela máquina, com aquele material e naquele dia, fazê-la nessa ordem pode ser ineficiente ou até perigoso.

O que fazer então?
Cumpre à letra (Safety-I) ou ajusta para garantir o melhor resultado (Safety-II)?

Todos já vimos situações deste tipo.

O estudo resume-o de forma clara:

  • Para o Safety-I, a variação é um erro.
  • Para o Safety-II, a variação é uma competência.

E é aqui que surge o desafio para o responsável de Segurança e Saúde:
Como equilibrar ambos os cenários sem cair no controlo absoluto nem no “cada um faz como quer”?

Quatro ensinamentos práticos para o dia a dia do técnico de prevenção

1. Não criar mais protocolos: criar melhores protocolos
O estudo não demoniza os procedimentos. O que critica é a sua proliferação sem critério.

Um bom protocolo deve:

  • basear-se em evidência real,
  • ser desenhado a partir da observação do trabalho real,
  • ser utilizável,
  • e focar-se no essencial.

Menos PDFs, mais compreensão do contexto.

2. Deixa espaço de manobra às pessoas
Os trabalhadores precisam de poder:

  • ajustar o que fazem,
  • interpretar a situação,
  • tomar decisões conscientes no momento.

Dar-lhes esse espaço não os torna menos seguros:
permite-lhes reagir melhor aos imprevistos e manter o trabalho sob controlo.

Ou seja, não é um risco, é uma força.

3. Observa como o sistema funciona “apesar de tudo”
O estudo identifica múltiplas barreiras:

  • sistemas defeituosos,
  • incoerências entre departamentos,
  • falhas de comunicação,
  • políticas externas que ninguém controla…

Ainda assim, o trabalho é feito.
Identificar essas estratégias invisíveis: aí está a chave da segurança real.

4. Procurar indicadores que revelem como a segurança é construída — e não apenas como falha.

Se medirmos apenas erros, veremos erros.
Se observarmos sucessos, veremos padrões que permitem reforçar o que funciona.

Então… qual é a receita? Um equilíbrio inteligente

O estudo conclui com uma mensagem forte e perfeitamente aplicável à SST:

Uma parte do sistema precisa de Safety-I para ser segura.
Outra parte precisa de Safety-II.
A chave não é escolher, é equilibrar.

Em empresas complexas — indústrias, obras, serviços, energéticas — isto é evidente.

  • O Safety-I assegura o básico: autorizações, consignações, EPI, normas técnicas.
  • O Safety-II permite navegar a complexidade diária: imprevistos, interações com terceiros, falhas de concepção, decisões táticas no momento.

Um responsável de Segurança e Saúde que domina ambas as abordagens não só reduz acidentes: ajuda a que o trabalho flua, que a organização aprenda e que as pessoas saiam todos os dias um pouco mais fortes.

Na PrevenControl vemos o mesmo que o estudo aponta: procedimentos que não encaixam na realidade, supervisores a resolver desvios antes de estes se tornarem incidentes, trabalhadores a adaptar o trabalho com soluções que nenhum manual previu e organizações que tentam controlar quando deveriam apoiar.

Por isso, apostamos numa abordagem dupla: Safety-I para os sistemas e Safety-II para a adaptação.

Porque a segurança real não está no papel, está no trabalho diário, e a nossa tarefa é compreendê-la e reforçá-la.

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